segunda-feira, 2 de março de 2015

Rio festeja 450 anos com a história contada através do Carnaval

No dia 1º de março de 1565, os portugueses desembarcavam em um istmo entre o Morro Cara de Cão e o Pão de Açúcar com um objetivo atribuído: garantir o domínio do território. E assim, sob a liderança de Estácio de Sá, foi fundada no local a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. O que os europeus nem poderiam imaginar, entretanto, é que 450 anos depois o local passaria por tantos momentos extraordinários ao longo da história, sendo alguns desses marcados por um espetáculo popular repleto de euforia, emoção e, principalmente, animação: o Carnaval.

A própria família de Estácio de Sá, na época, ficaria surpresa ao descobrir que, tantos séculos depois, em 1983, a Unidos de São Carlos, oriunda da primeira escola de samba do Brasil, a Deixa Falar, faria uma homenagem ao primeiro governador-geral da Capitania Real do Rio de Janeiro ao mudar de nome. E assim, batizada justamente de Estácio de Sá, manteve viva a memória desse período.

E a história que começou a ser construída por Estácio, Mem de Sá e tantos outros personagens que vieram com o passar do tempo é responsável pela felicidade de diversos torcedores da Portela. Afinal de contas, a agremiação simbolizada pela águia foi campeã do Carnaval em 1960, ainda na Avenida Rio Branco, com o enredo "Rio, capital eterna do samba". É bem verdade que o título veio junto com outras quatro escolas, em um ano tumultuado e protagonizado por uma briga de Natal da Portela com o chefe do policiamento. Por outro lado, apesar dos contratempos, a azul e branca veio com alegorias que retratavam a cidade, desde a fundação, aonde não faltaram lembranças e exaltações. "A Portela já era tricampeã e lutava pelo tetracampeonato. O que causou um grande impacto foi um efeito que a escola conseguiu com um dos morros da cidade, surgindo uma nova cidade por trás", conta o atual diretor cultural da escola, Luis Carlos Magalhães.

O tempo foi passando e, quase 200 anos após a fundação, a cidade do Rio de Janeiro foi elevada à categoria de capital do Brasil. Mas, durante esse período, nem tudo foi motivo para comemoração, como contou a São Clemente em 1964, ainda no antigo Grupo 3. Com o enredo "Rio dos vice-reis", a irreverente escola de Botafogo relembrava como os antigos governantes patrocinavam festas populares enquanto o povo sofria. Enredo com o mesmo título, aliás, o Império Serrano já havia apresentado dois anos antes no Grupo 1, quando foi vice-campeão.

Outro momento importante na história do país que tem o Rio de Janeiro como cenário aconteceu em 1817, com a chegada de Maria Leopoldina. Filha do último imperador do Sacro Império Romano-Germânico, Francisco II, casou-se de forma arranjada com Dom Pedro I, príncipe do já decadente Império Português. Mas Dona Leopoldina, que mais tarde viria a se tornar a primeira imperatriz do Brasil, acabou sendo de suma importância no processo de Independência. Ela exerceu a regência justamente quando o marido viajou a São Paulo para apaziguar o conturbado momento político da época. E como uma mulher forte e de enorme cultura, acabou inspirando o nome da escola de samba Imperatriz Leopoldinense. A verde e branca, aliás, que vinha de dois títulos seguidos em 1996, já no Sambódromo, bateu na trave ao ficar em segundo lugar com um enredo justamente sobre Leopoldina.

Mas foi em 1965 que a história do Rio se misturou aos adereços, alegorias e fantasias luxuosas do Carnaval. No ano do IV Centenário, as escolas de samba prepararam temas especiais para homenagear o cenário que tanto as inspirava. No fim, melhor para o Salgueiro, que abraçou carinhosamente a Cidade Maravilhosa com "História do Carnaval Carioca – Eneida". Segundo um dos integrantes do departamento cultural do Salgueiro, Gustavo Melo, a leveza e a inovação foram fundamentais para um grande impacto na avenida: "Foi um momento especial. A comissão de frente veio com burrinhas feitas em vime pelo Joãosinho Trinta e mostrava a festividade que aconteceu na chegada de Dom João VI ao Brasil em 1808. O Salgueiro trouxe signos diferentes, como pierrôs, arlequins e colombinas que, por incrível que pareça, eram elementos inéditos naquele ano. Você não via a história do Carnaval dentro do Carnaval e, foi exatamente essa proposta que o carnavalesco Fernando Pamplona quis fazer", ressalta o jornalista.

Assim, com uma sequência de momentos honoráveis durante tantos anos, os desfiles das escolas de samba acabaram mesmo deixando a desconfiança para o papel de protagonista. Tanto que a Estação Primeira de Mangueira, em 1972, na Candelária, mostrou ao mundo "Rio, Carnaval dos Carnavais", provando que "em todo o universo não existe outro igual. Só neste Rio tradicional". A verde e rosa foi a vice-campeã naquele ano.

Apesar dos enredos que envolvam o Rio não terem garantido mais títulos na década de 90 e nos anos 2000, a história carioca continuou estampando a Passarela do Samba. Em 1997, por exemplo, a União da Ilha mostrou o início do século XX com "Cidade Maravilhosa, o sonho de Pereira Passos", prefeito que ficou conhecido pela política de reforma urbana popularmente chamada de "Bota-abaixo". Enquanto isso, na área do futebol, dois tradicionais times cariocas, Flamengo e Vasco, recebiam homenagens de Estácio de Sá e Unidos da Tijuca, respectivamente, em 1995 e 1998. Já o Salgueiro voltou a exaltar o Rio em 2008, com a Portela cantando o bairro de Madureira em 2013 e a Região Portuária em 2014.

E com tantas homenagens mais do que merecidas, a maravilhosa cidade do Rio de Janeiro chega no próximo dia 1º de março aos 450 anos. Se ainda estivessem por aqui, Estácio, Dom Pedro, Dona Leopoldina, Pereira Passos e tantos outros personagens com certeza estariam caindo no samba junto com passistas, ao som das baterias, no Sambódromo carioca, ou, quem sabe, no alto de carros alegóricos como destaques, aguardando os próximos 50 anos. Ninguém ainda sabe como será o V Centenário, porém, podemos ter a certeza que o samba estará no meio.

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